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Teoria da Complexidade, segundo Edgar Morin

Nascido na França em 1921 adquiriu notoriedade ao formular uma teoria da complexidade que propõe pensar e descrever a complexidade humana e suas realizações. Sociólogo, antropólogo e filósofo, Edgar Morin fundou em Paris o Centro de Estudos Transdisciplinares da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESC) e foi orientador emérito no Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS). Publicou diversos livros e artigos sobre teoria da complexidade e pensamento complexo.

Enquanto Prigogine e Stengers se ocuparam de uma complexidade centrada na matéria, Morin (2000) propõe a perspectiva da complexidade no âmbito das relações sociais. Assume como ponto de partida uma contextualização onde descreve os princípios reguladores da ciência clássica, tradicionalmente marcada pela busca da verdade ancorada numa concepção que privilegiava determinismos.

Sob esta perspectiva, Morin (2000, p. 95) esclarece: Até o início do século XX – quando ela entra em crise – a ciência clássica se fundamentou sobre quatro pilares da certeza que têm por causa e efeito dissolver a complexidade pela simplicidade: o princípio da ordem, o princípio de separação, o princípio de redução, o caráter absoluto da lógica dedutivo-identitária.


Para Morin (2004) o princípio da ordem, a ciência defende que o universo é determinado por leis imperativas. O princípio de separação determina que toda solução ocorra pela decomposição do problema em seus elementos mais simples. Já no princípio de redução, a ciência clássica assume que o conhecimento fundamental consiste apenas em elementos do mundo físico e biológico, ficando em segundo plano e com menor valor, os conhecimentos de outras áreas do saber. Por fim, no princípio absoluto da lógica clássica a realidade é restringida pela lógica da indução e dedução, onde os processos que operam a invenção e a criatividade não são incluídos.

O desafio da complexidade vem então do fato de cada um desses princípios tenha se visto abalado, e mesmo questionado, no decorrer de diversos desenvolvimentos científicos durante o século XX, sem que, entretanto, tenha sido suficientemente pensada a necessidade de uma verdadeira reforma do pensamento (MORIN, 2004, p. 560).

Constatando a necessidade de uma verdadeira reforma do pensamento, Morin (2004) se propõe a enfrentar tal desafio assumindo a tarefa de construir uma Teoria da Complexidade capaz de lidar com as incertezas deste novo tempo. Para essa tarefa produziu diversos artigos e livros abordando questões sobre o pensamento complexo, epistemologia da complexidade, caos desordem e incerteza, desafios da complexidade, para consistência e lógicas não-convencionais, fundamentos da teoria da complexidade, entre outros.


Nos livros “A inteligência da complexidade” e “A religação dos saberes” o autor defende a importância de uma postura comprometida com a colaboração e integração de múltiplos saberes. Algo que contempla o ideal de inteligibilidade formulado por Whitehead (1929) onde todos os elementos de nossa experiência possam ser incluídos num sistema coerente de ideias gerais (PRIGOGINE, 1996).

Apesar dos estudos sobre a complexidade, num primeiro momento, levantarem a ideia de um possível determinismo como consequência da desordem, atualmente com o avanço dos estudos se entende que tal determinismo não existe.

Há uma espécie de luta entre um princípio de ordem e um princípio de desordem, mas também uma espécie de cooperação entre ambos, cooperação da qual nasce uma ideia ausente na física clássica, que é a de organização. Vemos, portanto, que a desordem não roubou o lugar da ordem. O que devemos considerar é o jogo entre a ordem, a desordem e a organização (MORIN, 2004, p. 561).

Seguindo nesta perspectiva é possível conceber como propósito de um pensamento complexo a unificação dos saberes através da contextualização e globalização, revelando os desafios da incerteza. Para essa tarefa Morin (2004) apresenta sete princípios norteadores que são complementares e interdependentes.


O princípio sistêmico ou organizacional consiste no entendimento onde o todo é mais do que a soma de suas partes. Sugere que em qualquer sistema complexo emanam qualidades e propriedades novas através de uma organização na totalidade dos elementos, sem que se possa explicar o fenômeno, apenas considerando uma de suas partes.

Já no princípio hologramático se considera que a parte está no todo e o todo está representado na parte. “A sociedade está presente em cada indivíduo, enquanto todo, através da linguagem e da cultura” (MORIN, 2000, p. 205).

No caso do círculo retroativo é esclarecido o processo de autorregulação onde uma reação causa um efeito e esse mesmo efeito altera a reação, gerando uma regulação através da interação mútua entre causa e efeito. Outro princípio circular é o recursivo, nele se entende que existem ocorrências onde o efeito é produto e causa de sua existência, um exemplo citado por Morin (2004) é a procriação, nela o homem é produzido e produtor, ou seja, é recursivo. Não existiria espécie humana se o produto, o homem, deixasse de ser a causa de sua produção.

No entendimento sobre o fenômeno de autonomia e dependência surge o princípio da auto-eco-organização, que sinaliza o fato dos humanos serem capazes de tomar decisões com certo grau de autonomia, mas que dependem de seu meio ambiente, cultura etc. Sob esse aspecto a organização ocorre em uma relação complexa entre autonomia e dependência (MORIN, 2004).


No princípio do dialógico se propõe unir dois ou mais fenômenos que pareçam excluir-se um ao outro. A dialógica trabalha com o operador Ordem/Desordem/Organização, sinalizando que a relação entre ordem e desordem deve ser equacionada e não tomada como excludente. O mesmo ocorre com a interação entre desordem e organização (MORIN, 2004).

Por fim, tem-se o princípio de reintrodução do conhecimento em todo o conhecimento. Esse sinaliza a necessidade da interdisciplinaridade nos saberes promovendo a união dos conhecimentos, onde esses são entendidos como percepções complexas da realidade (MORIN, 2004).

O autor sinaliza que esses sete princípios são fundamentais, num primeiro movimento, em direção à questão da complexidade e possível reforma do pensamento (MORIN, 2004).

Entre os desafios presentes na busca pelo esclarecimento do pensamento complexo, quatro se destacam, são eles: como reunir o que está separado, como tratar das incertezas, como trabalhar os desafios lógicos e como equacionar uma metodologia capaz de lidar com a complexidade (MORIN, 2004).


Entendendo que é próprio de uma investigação sobre a complexidade o surgimento de insuficiências lógicas, contradições e incertezas, em múltiplos e distintos contextos, não se trata de procurar leis ou novos sistemas, mas de encontrar um método que permita sugerir caminhos para a construção de um pensamento complexo. Muitas são as vantagens desse modo de raciocínio, esclarece o autor:

O modo complexo de pensar não tem somente a sua utilidade para os problemas organizacionais, sociais e políticos. O pensamento que afronta a incerteza pode esclarecer as estratégias do nosso mundo incerto. O pensamento que une pode esclarecer uma ética da reunião e da solidariedade. O pensamento da complexidade tem igualmente os seus prolongamentos existenciais que postulam a compreensão entre os humanos (MORIN, 2000, p. 213).

Referências:

MORIN Edgar, O Problema epistemológico de Complexidade. Lisboa: Europa-América, 1983.

MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000.

MORIN, Edgar. A religação dos saberes: o desafio do século XXI. 4. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004.

MORIN, Edgar. Educação e complexidade: os sete saberes e outros ensaios. São Paulo: Cortez, 2007.

MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. 5. ed. Lisboa: Instituto Piaget, 2008.

PRIGOGINE, Ilya. O fim das certezas: tempo, caos e as leis da natureza. São Paulo: Ed. Universidade de Brasília, 1996.

PRIGOGINE, Ilya; STENGERS, Isabelle. A nova aliança: metamorfose da ciência. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1997.




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